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O Negócio do ADSL
Por António Miguel Ferreira,
Director Geral VIA NET.WORKS Portugal
Na edição de 29
de Maio de 2002 do Jornal de Negócios, tive oportunidade de abordar o tema da
banda larga em Portugal, em particular focando-me sobre a tecnologia ADSL.
Referi que a
oferta wholesale ADSL em Portugal existia desde o final do ano 2000, mas tinha
até à data sido uma desilusão comercial, por diversas razões. Antes de mais, a
cobertura nacional era insuficiente para justificar uma aposta massiva na
promoção do serviço por parte dos diversos operadores, com vista a um retorno
do investimento num prazo razoável de tempo. Por outro lado, o modelo associado
à comercialização do serviço, essencialmente na componente de custos da rede
ADSL da PT, era financeiramente inviável. Não o teria sido, para muitos
operadores, nos anos de ouro do boom (os tais anos da "bolha tecnológica" que
muitas mentes ofuscaram), quando o único enfoque era o crescimento das
receitas, independentemente da sustentabilidade dos negócios, mas em 2001 já
poucos arriscavam aumentar a fúria dos seus accionistas.
O lançamento
prematuro foi, por isso, um flop para o qual contribuiram não só o modelo
proposto pela PT, mas também alguns operadores que na altura se apressaram a
efectuar pré-registo de clientes, para um serviço que não viriam a apresentar
no curto prazo, defraudando assim todas as expectativas.
Em meados de 2002 tudo mudou. A criação de uma nova classe de serviço (ADSL 512 Kbps)
com preços mais baixos, apesar de maior contenção
de tráfego (logo, menor qualidade garantida de serviço), uma nova modalidade de
instalação e uma alargada cobertura das centrais da PT, foram o ponto de
arranque para o lançamento de várias novas ofertas no retalho. Telepac, ONI,
Novis, e VIA NET.WORKS, esta vocacionada apenas para empresas, lançaram as suas
ofertas no mercado durante o Verão. Este foi o verdadeiro período de arranque
do serviço ADSL em Portugal, acelerando a adopção da banda larga junto dos
clientes finais, algo que já tinha sido iniciado com a rede de cabo. Para
muitos, ainda é visto como o início da "Banda Larga". Na realidade não o foi,
mas para a história assim será.
No entanto, os
erros do passado foram repetidos. Quem se lembra da hecatombe financeira, para
os operadores, apesar do benefício evidente na democratização do acesso
Internet, que foi o lançamento do chamado “acesso gratuito” à Internet em
finais de 1999? Apesar da evidência da inviabilidade financeira do negócio de
ADSL, face à oferta de wholesale e face aos preços de retalho da tecnologia
mais comparável, o acesso via cabo, assim como aos preços já praticados pela
Telepac (pioneira nesta área) relativamente a serviços ADSL, diversos
operadores arriscaram e entraram na habitual guerra de preços que não parecia
ter fim. Tarifas mais baixas, equipamentos subsidiados, instalações a preço
reduzido, até chegarmos a preços irrisórios para o serviço e equipamentos
oferecidos... é certo que se pode pensar que "concorrência oblige" e que a
quota de mercado era sagrada, ou mesmo que o ARPU iria subir no futuro com a
venda de outros serviços, mas todas estas convicções não alimentam empresas nem
convencem accionistas, nos tempos que correm. Entre o SAPO ADSL.PT, OniNet
Speed e Clix Turbo, os preços desceram... e as margens também! É certo que os
clientes beneficiaram de uma clara descida de preços, mas foram
provavelmente prejudicados na qualidade de serviço, pois as ofertas existentes
eram, pura e simplesmente, inviáveis financeiramente. Todos os "novos"
operadores encerarram, assim, o ano de 2002 com o negócio ADSL a contribuir
para os seus prejuízos.
Muito rapidamente
estes passaram a reclamar um descida de preços no modelo de wholesale ADSL,
exigindo um intervenção rápida da Anacom para reequilibrar o mercado, processo
que agora já está em curso. O desfecho, esse, ainda não é conhecido, mas a
expectativa é a de uma reformulação do modelo de wholesale por forma a permitir
melhores margens de comercialização, por intervenção do regulador nos custos e
também pela eliminação de alguns benefícios concedidos a um dos operadores, que
decorriam da aplicação do modelo anterior.
Esta reformulação
não está em causa, é justa e devida para reequilibrar o papel de cada um dos
operadores (a PT como fornecedora da rede ADSL e os restantes operadores que apresentam
as suas ofertas ADSL ao mercado). Peca por ser algo tardia, o que até é
compreensível pois o “bom senso” dita que devessemos esperar algum tempo para a
contabilidade analítica da PT reflectir, de facto, os custos associados à
prestação deste serviço e ao lançamento da rede ADSL em Portugal. No entanto,
os operadores é que optaram pela subsidiação do serviço (exceptuando a VIA
NET.WORKS e a KPNQwest), tomando uma decisão, crê-se, conscientes das
consequências. É certo que agora se irá provavelmente corrigir essa situação,
podendo o ADSL ser finalmente encarado como um negócio mais equilibrado,
contribuindo para a saúde financeira de cada um dos intevenientes no mercado. A
menos que os mesmos erros que já vimos acontecerem no passado, ou seja, a guerra
de preços "cega" entre os grandes operadores, voltem a repetir-se. Por quanto
tempo?
A concorrência
aumentará, de forma mais salutar, por outras vias, uma das quais será a oferta
de uma rede ADSL concorrente, baseada na desagregação do lacete local, processo
este que tem vindo a demorar muito mais tempo que o desejável.
Finalmente,
repetindo-me no meu desejo final, expresso nesse mesmo artigo que referi
inicialmente, é estratégico e urgente repensar o que fazer com a rede de
televisão por cabo, no sentido de a abrir, também, a outros operadores. O
ideal, seria acompanhar esta "abertura" de uma "venda", sendo este desejo bem
mais difícil de concretizar. O que não quer dizer que seja inviável.
António Miguel Ferreira
in Jornal de Negócios, 18 de Julho de 2003
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