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Spam e Produtividade
Por António Miguel Ferreira,
Director Geral
VIA NET.WORKS Portugal

Qualquer utilizador da Internet já recebeu, na sua caixa de correio electrónico, mensagens não solicitadas que, normalmente, publicitam um qualquer serviço ou produto, mais ou menos estranho. Este fenómeno, conhecido como spam (forma abusiva de utilização de correio electrónico para envio massivo de mensagens não solicitadas; ver uma definição em http://www.dicio.net/cgi-bin/pesquisa?palavra=spam), tem vindo a assumir proporções assustadoras e é responsável por uma grande parte da enorme quantidade de emails que todos os dias atravessa a Internet.

Um estudo europeu calculou que, durante o ano de 2002, tenham circulado na Internet (o que não inclui as redes privadas das empresas) cerca de 31 biliões de mensagens consideradas spam. Segundo um outro estudo, da Brightmail, o spam teria representado em 2002 cerca de 40% de todo o tráfego de email na Internet, subindo dos 8% estimados para o ano de 2001. O Radicati Group acrescenta que em 2007 espera que o spam represente uns impressionantes 70% do tráfego de email...

No entanto, o spam dificilmente pode ser considerado ilegal (a actividade em si), apesar de alguns países estarem a estudar leis que permitam ilegalizar esta actividade. Os cidadãos são normalmente favoráveis a estas iniciativas, pois são sensíveis ao tempo que dispendem a eliminar estes emails, diariamente, das suas caixas de correio. Algumas da mensagens enviadas no âmbito de actividades de spam são claramente fraudulentas pois induzem em erro ou iludem os destinatários, com esquemas miraculosos em pirâmide (“envie esta mensagem a 10 pessoas e atingirá a felicidade”) ou, ainda, promovem investimentos duvidosos. Outro tipo de conteúdos também pode ser considerado efectivamente ilegal, mas muita da actividade levada a cabo através de spam promove produtos e serviços perfeitamente lícitos, sendo apenas então considerada mais uma forma de publicidade... normalmente originada por empresas ou marcas que se abstraem ou ignoram o impacto negativo que esta actividade pode ter na sua imagem junto do público.

O que ninguém pode negar é que o spam causa grandes prejuízos, tendo sido estimado, no estudo a que inicialmente fizemos referência, que só o custo de apagar o spam (aqueles segundos ou minutos que todos nós passamos a realizar esta acção) tenha atingido mais de 10 biliões de euros em 2002. Mas estes prejuízos são apenas uma pequena parte dos problemas que o spam pode causar. Não esqueçamos que muitos vírus são também difundidos por esta via, o que pode provocar estragos nos computadores e sistemas internos de uma empresa ou de uma pessoa, em casa. A Network Associates calcula que 0.6% a 0.7% dos emails enviados através da Internet contenham vírus e, podemos assumir sem riscos, que a maioria destes vírus se encontram em mensagens difundidas através de práticas de spam.

Se há alguns anos atrás o fenómeno era imperceptível ou, pelo menos, pouco incomodativo para muitos, hoje em dia já não podemos dizer o mesmo. Quem possuir um endereço de email há algum tempo e, sobretudo, se tiver o hábito de o registar em diversos sites Web duvidosos, conhece bem a sensação de ser inundado de mensagens completamente inúteis... A Jupiter Research calcula que, em média, cada utilizador receba cerca de 40 emails não solicitados por dia (devo dizer que num dos endereços pessoais de email que possuo, que existe desde 1994 e que provavelmente se encontra difundido por quase todas as infames listas de spam, recebo bem mais de 100 mensagens diárias não solicitadas).

As empresas são bastante afectadas por este fenómeno, sobretudo se não tiverem tomado medidas adequadas de protecção que minimizem o problema. Num estudo efectuado pela Harris Interactive nos EUA, cerca de 30% das empresas inquiridas referiram ser afectadas na sua produtividade devido a este fenómeno, mas podemos com alguma segurança admitir que o número real será bem superior.

Não existe nenhuma forma infalível de bloquear completamente o spam que, ao mesmo tempo, não limite também fortemente todas as vantagens da comunicação efectuada por email. Para além da óbvia, mas utópica, opção de não utilizar o email, há diversos sistemas tipo gateway (intermediários) que permitem que um determinado utilizador só receba email de endereços previamente autorizados pelo próprio. É o chamado “permission email”.Desta forma, a protecção é quase infalível, o spam “não passa”. No entanto, este sistema obriga a uma constante actualização da lista de endereços autorizados e a uma verificação regular das mensagens rejeitadas, não vá um nosso potencial cliente ter-nos enviado um email que nunca chegaria ao destino... e este trabalho de actualização acaba por também ter algum impacto – menor, é certo - na produtividade.

As formas mais utilizadas de diminuir o efeito do spam são adaptadas às diferentes necessidades. Destinam-se quer aos operadores de Internet (que gerem os servidores de email onde muitos utilizadores têm as suas caixas de correio), quer às empresas directamente, nos seus servidores internos de correio ou através de sistemas intermédios de controlo (gateways anti-vírus / anti-spam), quer ainda aos utilizadores finais, nos seus próprios PCs. Não existe um solução única milagrosa, sendo provavelmente mais sensato cada empresa estudar, com o seu fornecedor especializado de serviços Internet, uma solução mista que abranja vários tipos de protecção anti-spam e, simultaneamente, anti-vírus, para além dos mais tradicionais sistemas de firewall ou os ainda inovadores sistemas de segurança preditiva.

A guerra do spam é difícil de ser ganha, pois esta actividade apenas se baseia na mais básica função do correio electrónico: permitir que uma mensagem seja enviada de um remetente para um destinatário, rapidamente, através de meios electrónicos. No entanto, com a devida política e medidas de protecção é possível limitar bastante os efeitos nefastos do spam, tornando-o inofensivo, de forma a que não afecte a produtividade das empresas que, necessariamente, estão ligadas à Internet e já a consideram um elemento crítico de suporte ao seu core-business.

António Miguel Ferreira
in PME&TI - Segurança Informática, 1 a 15 de Junho de 2003
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